6 dicas para garantir a qualidade acústica em salas de cinema

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Projetos devem eliminar a interferência de ruídos internos e externos a fim de proporcionar uma ótima experiência de lazer ao espectador.

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Texto: Gisele Cichinelli

O sistema de sonorização de um cinema geralmente opera em alto volume e é a principal fonte sonora emitida dentro da sala. Contudo, alguns sons externos – como os originados pelo público no lobby ou nos corredores, o ruído do sistema de ar-condicionado e do impacto da chuva sobre a cobertura –, podem incomodar bastante uma sessão de cinema.

Nos últimos anos, o modelo de várias salas integradas, dispostas uma ao lado da outra, tornou ainda mais complexos os projetos arquitetônicos e acústicos desses espaços, requerendo atenção redobrada por parte dos projetistas. Para ajudar nessa tarefa, selecionamos seis dicas que fazem a diferença. Confira!

1 – Fique atento às estratégias corretas de projeto

Dois aspectos básicos devem ser considerados pelo projetista: o isolamento e o condicionamento acústico do cinema.

Um bom isolamento acústico da sala garantirá que os ruídos externos não interfiram no filme, assim como o ruído gerado na própria sala não deve incomodar as salas vizinhas. Para que isso ocorra, deve-se seguir os parâmetros estabelecidos na NBR-10.152 (Acústica – Níveis de pressão sonora em ambientes internos a edificações), que indica os níveis de pressão sonora para o conforto acústico.

O condicionamento acústico deve prover a qualidade do som no ambiente. Uma sala bem projetada torna agradável a percepção dos sons, trazendo também a inteligibilidade da palavra.

“Com o volume do recinto e a finalidade de seu uso para cinema encontramos o tempo ótimo de reverberação da sala, que deve ser alcançado com a utilização de materiais e revestimentos acústicos aplicados na quantidade ideal”, explica Fernanda Montenegro Cotias Fonseca, arquiteta da Sonar Engenharia.

2 – Sala de cinema não é teatro!

A distribuição do som em uma sala de cinema acontece de modo uniforme e de forma eletrônica. Ou seja, através de sistemas de alto falante estéreo e dolby, por exemplo. Geralmente, esses equipamentos são distribuídos por trás da tela, nas laterais e fundos da sala. Outra característica deste tipo de sala é a alta capacidade de volume. Por essas razões, o projeto deve evitar a reverberação acústica, comumente chamada de eco, garantindo, desse modo, a inteligibilidade do som.

“Os projetos de salas de teatro e de música também devem se preocupar com a reverberação. Porém, principalmente com a distribuição homogênea do som acústico natural, com origem na voz humana ou de instrumentos musicais. Diferentemente de cinemas, cujo som provém de um sistema eletrônico”, compara o arquiteto Conrado García Ferrés, diretor técnico da FMC Arquitetura (Ferrés, Milani & Campanhã Arquitetura).

Nas salas de cinema, em geral, predominam os materiais absorventes do som, enquanto em teatros e salas de concertos os materiais refletivos são dispostos em uma geometria específica que proporciona a distribuição homogênea do som em toda a sala.

3 – Utilize materiais corretos para essa finalidade

Os materiais que serão especificados para salas de cinema devem possuir um bom coeficiente de absorção sonora, tanto para o forro quanto para as paredes.

O projetista de acústica deve buscar as informações técnicas de cada material com o seu fabricante, através de testes em laboratório que apresentam os coeficientes de absorção nas diversas frequências de cálculo. De posse dessas informações, ele calculará o quanto de cada material deve ser utilizado. “Levando em conta também o tipo de poltrona que será utilizada e a própria absorção das pessoas de acordo com a capacidade da sala”, ressalta Fernanda.

As paredes devem receber revestimentos acústicos com alto grau de absorção sonora. Além do comportamento acústico, a escolha desses revestimentos irá variar de acordo com outros fatores como resistência ao fogo, resistência mecânica, manutenção, estética e custo.

4 – Especifique corretamente os forros acústicos

Materiais absorventes devem ser usados tanto nas paredes laterais quanto nas de fundo. De acordo com Ferrés, a recomendação é usar forros modulares, acústicos e de fibras minerais. Sobre os forros modulares podem ser distribuídas camadas de mantas de lã de vidro.

As paredes devem ser revestidas com uma composição de mantas de lã de vidro rígidas, cobertas com cortinas intensamente drapeadas, de tecidos pesados.

“O forro mais adequado seria o removível mineral, de preferência na cor preta para evitar ofuscamento da visão”, completa Fonseca.

5 – Especifique pisos e poltronas para esse fim

O piso mais recomendado para as circulações é o carpete, que evita o ruído de impacto causado pelo caminhar das pessoas, principalmente com saltos. Na área da plateia, por uma questão de limpeza das salas, recomenda-se o uso do piso vinílico.

Além de garantirem o conforto dos usuários, as poltronas estofadas no assento e no encosto comumente utilizadas em cinemas também devem ser escolhidas pelo seu coeficiente de absorção acústica.

6 – Evite interferências de outras salas

Como evitar que o som de uma sala invada outras? O primeiro ponto é observar as paredes entre as salas, que devem ter alta absorção acústica, na ordem de 45 decibéis. O encontro entre as paredes com o piso ou com o telhado também requer atenção especial. A recomendação é especificar uma vedação reforçada com materiais acústicos que impeçam a passagem do som por frestas ou falhas de acabamento.

Para obter a absorção necessária, as paredes podem ser de alvenaria maciça (com o inconveniente do peso próprio das paredes altas) ou de gesso, com a largura necessária e uma cuidadosa combinação de número de placas de cada lado e miolo de lã de vidro de alta densidade para esse fim.

“Geralmente, usamos paredes isolantes em todo o perímetro, na maioria das vezes em sistema de drywall pois, além de muito eficientes, conferem um maior isolamento sonoro com menor peso para a estrutura”, reforça Fonseca.

A arquiteta lembra ainda que outras estratégias devem ser usadas, como o uso de antecâmaras e portas acústicas em todos os acessos, forros isolantes de ruído em gesso acartonado e camada de lã mineral ou pet (caso a laje não isole o necessário), além do tratamento das tubulações de ar-condicionado para evitar que ocorram pontes de ruído entre as salas.

Projetos inspiradores

Cine Centro Cultural Banco do Brasil

Revestimentos e equipamentos bastante desgastados pelo tempo e um espaço com pé-direito baixo eram os principais problemas da antiga sala de cinema do Centro Cultural Banco do Brasil, localizado em um prédio histórico tombado no centro da capital paulista.

Alguns desafios foram cruciais no projeto de restauração, entre eles focar na melhoria do tratamento acústico da sala. “As paredes não precisaram ser reforçadas acusticamente pois, por se tratar de um prédio antigo, todas eram bem espessas e atendiam ao isolamento necessário”, relembra a arquiteta Fernanda Montenegro Cotias Fonseca, da Sonar Engenharia, empresa responsável pelo projeto.

No entanto, todos os revestimentos, forros, pisos, portas e poltronas foram substituídos. Para o forro, optou-se por placas de lã de vidro, removíveis. As paredes receberam dois tipos de revestimentos acústicos, sendo um em madeira perfurada, modelo Nexacustic ignífugo, aplicado com afastamento da parede com o espaço de ar preenchido com manta de lã de pet, e o outro, em painéis semirrígidos de lã de pet revestida com tecido. Internamente, na cabine de projeção, todas as paredes e teto receberam revestimento acústico Sonex illtec perfilado, para absorver qualquer ruído proveniente dos equipamentos ou dos técnicos durante a exibição dos filmes.

Cine Guararema

Imagens: Arquivo FMC

Uma única sala de cinema aberta à rua pública, sem salas contíguas. Essa é a principal característica do Centerplex Cine Guararema, localizado no centro de Guararema (SP). Sua proximidade imediata do movimento de automóveis, ônibus e caminhões na rua o diferencia completamente dos similares, quase todos praticamente isolados em andares altos dentro de shoppings.

Esse fator foi particularmente observado no projeto de acústica, assinado pela FMC Arquitetura (Ferrés, Milani & Campanhã Arquitetura). “Tomamos um cuidado especial com o isolamento externo, fachadas e telhado, para que o som do cinema não incomode a vizinhança e para que o ruído da rua não entre na sala”, observa o arquiteto Conrado García Ferrés, diretor técnico do escritório. Uma antecâmara com duas linhas de portas foi usada para evitar a entrada do ruído do lobby na sala.

O som alto das falas de pessoas concentrado no lobby do cinema na espera do início da seguinte sessão pode incomodar bastante a quem ainda está assistindo o fim do filme da sessão anterior. Neste projeto, além da antessala acústica com dupla porta, a estrutura e a inclinação da arquibancada que se sobrepõe ao lobby foram aproveitadas. “Nela, penduramos um forro de painéis madeirados acústicos Nexacustic da OWA, com a complementação de mantas de lã de vidro sobre o mesmo, formando uma superfície curva que garante a necessária absorção do som gerado no lobby e garante o conforto dos espectadores no auditório”, completa Ferrés.

Colaboração técnica:

Fernanda Montenegro Cotias Fonseca – arquiteta da Sonar Engenharia

Conrado García Ferrés – arquiteto e diretor técnico da FMC Arquitetura (Ferrés, Milani & Campanhã Arquitetura)

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