Como serão os escritórios após a pandemia?

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A Covid-19 impactará definitivamente a forma de trabalhar e de usar os espaços corporativos. Veja quais são as tendências de materiais e de soluções de projeto para o futuro

Texto: Gisele Cichinelli

Fotos: Fellipe Lima

O Coronavírus provocou mudanças marcantes nos nossos hábitos e na nossa rotina. Ainda é cedo para avaliar seus impactos com clareza, mas a forma de trabalhar dentro dos escritórios muito provavelmente jamais será a mesma. Novas necessidades já estão surgindo e, consequentemente, novas tendências também devem dar o tom nos futuros projetos de ambientes corporativos.

Mas de que forma estas mudanças serão sentidas em um primeiro momento? Segundo a arquiteta Roseli Croce, do escritório Spazhio Croce Arquitetura Corporativa, os escritórios não deixarão de existir, mas poderão perder alguns bons metros de área útil. “Os espaços serão reduzidos, pois muitos funcionários farão home office e poderão, inclusive, adotar uma escala de revezamento. Mas os espaços corporativos ainda estarão lá, já que alguns cargos e atividades profissionais continuam a demandar espaço físico e salas de reuniões”, acredita.

Quem também opina sobre o futuro dos escritórios no mundo após a pandemia é Marcos Aldrighi, sócio do escritório Piratininga Arquitetura. Ele admite que a Covid-19 está promovendo um cenário bastante complexo, com a possibilidade de várias soluções e caminhos para o retorno ao trabalho e aos novos projetos.

Para o arquiteto, a integração de novos profissionais, tanto na etapa de projeto quanto ao staff das empresas, passará a ser uma realidade. Além das disciplinas de engenharia e diferentes consultorias que já eram comuns, outras disciplinas, novas, como a infectologia, por exemplo, deverão ser agregadas ao projeto. Equipes de limpeza especializadas e protocolos governamentais, sindicais ou de outras associações deverão ser integrados por cada empresa também”.

Antes da pandemia se instalar, uma das principais tendências para espaços corporativos vinha sendo a criação de ambientes mais despojados, com menos “cara” de escritório – uma espécie de antecipação do home office. “A ideia, até aqui, tem sido estimular as pessoas a trabalharem não apenas em suas mesas, mas a explorarem e a aproveitarem outras áreas, como os cafés e lounges”, lembra a arquiteta Claudia Sátyro Maia, do escritório Pitá Arquitetura.

A arquiteta Isabella Cencini, também do Pitá Arquitetura, reforça que a principal mudança dos últimos anos vinha sendo a quebra do paradigma de que escritórios não podiam ter uma aparência residencial. “Pelo contrário, todos apostaram nisso. E como resultado, houve o uso extensivo de materiais mais residenciais, porém de grande durabilidade. Além disso, a questão ergonômica e o conforto acústico têm melhorado a cada dia”, explica.

Quais materiais terão destaque?

Sem dúvida, algumas matérias-primas e materiais deverão ser ainda mais valorizados. É o caso das placas de acrílico transparentes que poderão ser colocadas como painéis divisores entre os colaboradores para evitar o contato direto durante o trabalho, além disso, a tendência a curto e médio prazo é ter escritórios com menos estações de trabalho para garantir o distanciamento social de 1,5m no mínimo, além de dar mais preferência à assentos individuais como poltronas individuais ao invés de sofás.

Os sensores de presença também ganham destaque já que excluem a necessidade de acender as luzes, abrir portas e torneiras e acionar dispensers de sabonete, válvulas de bacias e mictórios, evitando o contato dos funcionários em uma mesma superfície por diversas vezes ao dia.

E claro, os locais para limpeza e desinfecção ganharão mais notoriedade como é o caso dos lavatórios para higienizar as mãos que passam a ser incluídos nos desenhos dos escritórios, não só dentro dos banheiros, mas também em espaços estratégicos.

Tendências para o futuro x Conforto acústico

Os novos rumos dos projetos de escritórios impactam diretamente no planejamento do conforto acústico, mas não é hora de radicalizar e sim fazer adaptações aos poucos, é o que afirma Monica Campino, Gerente de Especificação da OWA Sonex. “Precisamos sempre pensar no meio termo, mesmo que decidam que o open space é o melhor caminho, por exemplo, ainda assim é necessário ter áreas de privacidade. Não vai ser tudo aberto ou tudo fechado.”

De fato, garantir privacidade ao colaborador em um escritório de planta livre tem sido um desafio para os arquitetos e essa necessidade não deixará de existir depois da Covid-19. A criação das chamadas “cabines de foco” ou “casulos acústicos”, um espaço de refúgio onde é possível dar maior privacidade ao colaborador para que ele possa desenvolver uma atividade que demande concentração, faça uma chamada de vídeo ou até mesmo relaxe por alguns minutos, deve continuar forte nos próximos anos. 

Mas quando falamos da modernização que vinha acontecendo na arquitetura corporativa, ambientes como as áreas de descompressão precisarão ser revisitadas. Estes espaços, desenvolvidos para incentivar o trabalho criativo e para permitir que os colaboradores descarreguem a tensão do dia a dia, demandarão não apenas boas soluções acústicas (como os forros com alto índice de absorção, nuvens acústicas e painéis com características de reflexão ou absorção), como também soluções para evitar o contágio durante o momento de descontração dos funcionários.  

“Estes espaços continuarão a existir, mas devem ser projetados de forma a garantir espaçamentos maiores entre as pessoas e com lavatórios para que os colaboradores possam se higienizar constantemente”, afirma Roseli.

Para Monica, a necessidade acústica vai mudar, mas sempre será importante no ambiente de trabalho ou em qualquer lugar onde tenha pessoas falando. “Provavelmente, iremos valorizar mais a ventilação natural e ter menos escritórios fechados com ar-condicionado ligado a todo tempo. Mas a necessidade acústica continua a existir mesmo com escritórios mais ‘vazios’ porque privacidade e controle de ruídos sempre serão uma necessidade”.

Outro conceito que invadiu o mundo corporativo pré-pandemia foi o dos chamados open spaces. Estes escritórios de planta livre mudaram completamente a dinâmica operacional das empresas. “Esta tendência se consolidou, mas é importante destacar que, do ponto de vista acústico, pode haver prejuízos, sobretudo com relação à privacidade, perda da capacidade de concentração e inteligibilidade”, explica Marcos Aldrighi.

Para levar conforto nessa nova realidade em que o trabalho acontece no escritório e em casa, produtos de fácil instalação, versáteis e eficientes ganham destaque. Roseli Croce ressalta que questões como conforto acústico podem ser completamente resolvidas escolhendo os materiais certos. “Acredito que os baffles também continuarão a ser especificados como absorvedores acústicos em lugares maiores e até mesmo nos home offices”, observa Roseli.

Pós Covid-19

Mas será que todos estes conceitos e tendências irão resistir ao novo mundo que surgirá?

Para Roseli Croce, o conceito de open space não deve desaparecer, até porque ele permite a criação de espaços mais amplos e dotados de um maior número de janelas, o que é conveniente para garantir ótima circulação do ar.

No entanto, a arquiteta observa que alguns cuidados deverão ser redobrados. Garantir o distanciamento entre as pessoas, pensar em uma solução para o escalonamento dos funcionários em turnos de trabalho diferentes e na instalação de barreiras acrílicas entre as estações de trabalho devem passar a integrar o escopo dos novos projetos. 

E os critérios para a escolha dos produtos também vão mudar. Soluções versáteis que estiveram adaptadas a essa nova realidade tendem a ganhar mais espaço. “Agora existe uma preocupação maior com a assepsia. O Humancare da OWA é um forro mineral que tem a propriedade de descontaminar ambientes e é um produto como os outros da linha mas com diferentes acabamentos e cores, então reúne um critério importante por conta do vírus sem perder a aparência projetada pelo arquiteto”, afirma Monica.

Que medidas podem ser adotadas para evitar a contaminação dos funcionários dentro dos escritórios?

– Uso de materiais e acabamentos de fácil limpeza e com propriedades antimicrobianas

– Utilização de máscaras durante o horário de trabalho

– Realização de medições diárias da temperatura de colaboradores e visitantes

– Realização de limpeza frequente de banheiros e copas

– Garantir a oferta de protetores ou de um sistema para limpeza dos sapatos

– Oferecer material como papel-toalha e álcool para limpeza da sua área de trabalho

– Uso de lixeiras com acionamento ou pedal

– Dar preferência para ventilação natural

Acústica e estética

Um grande open space define o projeto do escritório da empresa Skynone. Seguindo a tendência da arquitetura corporativa contemporânea, todos os setores estão juntos, dispensando a hierarquia, e as mesas não apresentam lugares definidos.

Uma questão importante neste projeto, de autoria do escritório Spazhio Croce Arquitetura Corporativa, foi resolver a questão acústica. Para isso, optou-se pela especificação dos Baffles Sonex Iltec. “Como havia um pé-direito muito alto, eles acabaram se tornando um elemento corporativo também”, explica Roseli Croce, do escritório Spazhio Croce Arquitetura Corporativa, responsável pelo projeto.

Colaboração técnica

Juliana Nogueira – Nogueira & Camilo Arquitetura  

Roseli Croce – Spazhio Croce Arquitetura Corporativa

Piratininga Arquitetura – Marcos Aldrighi (sócio), Cínthia Verçosa, Karolina Carloni e Ícaro Mortatatti (equipe)

Pitá Arquitetura – Claudia Sátyro Maia e Isabella Cencini

Mônica Campino – Gerente de Especificação da OWA Sonex


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