Como tratar acusticamente quadras poliesportivas?

Acústica em Quadras Poliesportivas
10 minutos para ler

Sons do impacto da bola e dos gritos da torcida podem alcançar até 110dB. Veja quais cuidados acústicos devem ser observados neste tipo de ambiente.

As fontes de ruído em quadras poliesportivas são diversas e podem prejudicar não apenas quem está no seu entorno, mas também o próprio esportista. Ainda que não cause grande impacto para o torcedor, os ruídos produzidos pelas torcidas podem prejudicar a comunicação entre os atletas. Quando combinados com os sons inerentes a cada prática esportiva, podem causar enorme desconforto para quem está fora da quadra, trazendo reflexos para a saúde de quem se expõe a eles com frequência.  

Por isso, tanto o projeto acústico quanto o projeto arquitetônico de quadras representam um desafio para os profissionais envolvidos. São muitas as variáveis que devem ser consideradas nestas fases, a começar pela localização da quadra. Um estudo do entorno é essencial para definir tanto o melhor local para sua instalação, quanto as soluções necessárias para isolá-la acusticamente. 

“No Brasil, normalmente estes ambientes possuem ventilação natural, por isso é possível projetar barreiras acústicas para proteger vizinhos sem a necessidade de enclausurá-los. Existem também elementos como peitoris ventilados e cobogós acústicos que permitem a troca de ar e atenuam a transmissão sonora”, observa Débora Barretto, CEO da Audium. 

Propagação de ruídos 

A qualidade acústica interna é outro ponto de atenção nesses projetos. Para garanti-la, é necessário especificar materiais absorventes, que podem tanto ser fixados na estrutura da cobertura ou ser a própria cobertura, como o sistema de telha sanduíche com lã de vidro.

Para Lineu Passeri Júnior, sócio e diretor-técnico da Passeri Acústica, controlar a propagação do ruído aéreo (oriundo da comunicação entre os atletas, da torcida e uma parcela do som produzido pelo impacto da bola contra o piso da quadra) e mitigar a propagação do ruído de impacto (da bola e dos pés dos atletas batendo contra o piso da quadra) são dois pontos extremamente importantes em projetos acústicos para quadras. 

“A preocupação com o controle da propagação do ruído aéreo ocorre sempre em relação aos ambientes adjacentes e à vizinhança no entorno da quadra. Já a preocupação com o ruído de impacto ocorre sempre que a quadra esteja situada em um edifício multipavimentos, que tenha atividades que requeiram algum silêncio, principalmente nos ambientes situados abaixo e logo acima dela”, explica.

Quais as características acústicas das quadras fechadas e abertas?

Há duas diferenças significativas em projetos acústicos de quadras fechadas e abertas. A primeira diz respeito ao sistema de controle da propagação do ruído aéreo. Em quadras fechadas, esse controle é feito por intermédio da própria envoltória que fecha e cobre a quadra. Há também a necessidade de um sistema de renovação ou condicionamento de ar. Já nas quadras abertas, o controle da propagação do ruído aéreo requer barreiras acústicas ou o afastamento da quadra em relação a locais sensíveis ao ruído.

A segunda diferença diz respeito ao controle da reverberação. Em quadras fechadas, a instalação de materiais de absorção acústica é quase sempre indispensável para reduzir o ruído interno decorrente do excesso de reverberação (e, assim, reduzir a emissão de ruído aéreo da quadra como um todo), bem como aumentar significativamente o conforto em seu interior, melhorando a intelecção da palavra falada. Em quadras abertas, a ausência de cobertura assegura a propagação sonora vertical em campo livre, eliminando o problema da reverberação.

“As quadras fechadas são mais fáceis de serem isoladas por não terem aberturas e, portanto, podem estar mais próximas de áreas residenciais”, observa Débora. Ela lembra que, nestes casos, o encontro entre a cobertura e a parede deve ser muito bem estudado, pois é um ponto que costuma deixar muitas frestas. 

“O condicionamento deve ser reforçado, pois a energia sonora estará confinada e, consequentemente, se amplificará muito caso as superfícies sejam reflexivas, tornando o ambiente insalubre”, explica. Já as quadras abertas demandam soluções que atenuem o som por difração sonora, mas mantendo a ventilação. Portanto, as questões térmicas e acústicas devem ser estudadas e compatibilizadas.

Em que momento especificar as soluções acústicas para quadras?

As soluções de isolamento sonoro, principalmente de quadras fechadas, devem ser obrigatoriamente previstas na gênese do projeto, pois estão diretamente ligadas com as soluções de arquitetura (partido, materiais e sistema construtivo), estrutura, instalações prediais e sistemas AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado). 

Já as soluções de condicionamento acústico para controle da reverberação podem ser feitas durante o projeto ou, em alguns casos, até mesmo após a conclusão da obra. “Nesta última hipótese, que é perfeitamente possível, sempre haverá conflitos devido à necessidade de ajustes para a instalação dos sistemas de absorção ou de modificação do aspecto interno da quadra em função da modificação dos materiais de revestimento”, ressalta Passeri.  

Segundo Débora, na fase inicial, as possibilidades são muito maiores e os custos, menores. No entanto, é possível e muito comum ter que solucionar problemas no pós-obra. Dependendo da sua natureza, se de isolamento ou condicionamento acústico, cálculos e simulações devem ser realizados para dimensionar a quantidade e localização ideal dos materiais acústicos. 

É importante reforçar que as especificações acústicas são consequência de estudos técnicos e não devem ser realizadas de forma aleatória e empírica. Portanto é fundamental o apoio de um consultor de acústica para garantir o resultado, com o uso das melhores soluções técnicas, estéticas e financeiras.  

Quais são as principais tendências e novidades nesta área?

As principais novidades neste setor ocorrem, sobretudo, nos sistemas de controle da reverberação em quadras fechadas. Diversos projetos têm utilizado materiais de absorção sonora, não somente na cobertura, mas também no revestimento de paredes da quadra. Materiais mais resistentes, como os painéis de fibra de madeira mineralizada Sonex Fiberwood, por exemplo, podem ser instalados tanto na cobertura (como forro, nuvens ou como os baffles) quanto nas paredes da quadra.

“Eles apresentam elevada resistência ao impacto e alto coeficiente de absorção sonora ao mesmo tempo”, observa Passeri. Atualmente o arquiteto conta com uma grande variedade de cores deste produto, possibilitando uma infinidade de combinações e desenhos.

O uso de materiais absorventes como elementos decorativos, de programação visual e marketing também se tornou uma tendência em projetos de quadras esportivas. “Dessa forma, duas funções são associadas a um único elemento, conceito que converge com um pensamento sustentável e eficiente”, explica Débora.

Outra solução bastante interessante para quadras é a linha Sonex illtec que pode se adequar ao formato e cor exata da edificação e se integrar as instalações do forro quase imperceptível. Agora para projetos mais inovadores, a linha também está disponível em formato de nuvens e baffles, como é o caso do ginásio abaixo que utilizou baffles nas cores cinza e laranja para melhorar a acústica do espaço.

Powered by Rock Convert
Figura 2 Quadra do Colégio Vera Cruz com baffles coloridos fixados no teto

Materiais para garantir o isolamento acústico das quadras

– Parede com isolação em lã de vidro

– Esquadria acústica (porta e visor)

– Barreira acústica

– Peitoril ventilado

– Cobogó isolante

– Telha isolante acústica (dupla ou tripla)

Materiais para garantir a absorção acústica das quadras

 – Nuvens e Baffles

– Cilindros acústicos (Rondo)

– Revestimento de parede à base de fibra de madeira (para maior resistência mecânica e a umidade)

– Tijolo perfurado com lã

– Chapa metálica perfurada com lã

Case – Retrofit SESC Piracicaba 

Uma imagem contendo edifício, no interior, em pé, andando

Descrição gerada automaticamente
Figura 3 Foto: Divulgação SESC Piracicaba

O projeto de acústica da quadra fechada do SESC Piracicaba, elaborado pela Passeri Acústica em 2016, tinha como principal objetivo a correção de uma série de problemas decorrentes dos sistemas de isolamento sonoro e de condicionamento acústico.

A quadra fechada situa-se no fundo do lote, com grande proximidade das residências vizinhas. As características construtivas do edifício (fechamentos laterais, portas, revestimentos e janelas) não se mostravam compatíveis com as exigências mínimas de isolamento sonoro e tratamento acústico requeridas em ambientes nos quais se realizam grandes eventos. “Jogos, torneios esportivos e alguns espetáculos de música costumam gerar níveis elevados de ruído”, observa Lineu Passeri Júnior, sócio e diretor-técnico da Passeri Acústica, empresa responsável pelo projeto acústico.

Para garantir o isolamento sonoro, foram propostas a substituição dos caixilhos de ferro por caixilhos de alumínio tipo “maxim-ar”, com sistema de vedação mais eficiente, e a substituição das portas existentes por portas acústicas integradas aos novos caixilhos com vidros fixos. A vedação do vão do beiral, em todo o perímetro da quadra, com placas duplas de gesso acartonado verde (resistente à água) preenchidas com lã de vidro e a substituição das gaxetas de vedação das portas laterais por um sistema de vedação mais eficiente, melhorando o isolamento da área dos eventos musicais em relação ao ambiente externo, também completam o projeto. 

Ainda era necessário que janelas e portas se mantivessem fechadas durante shows e apresentações, a fim de isolar a área da quadra coberta em relação ao meio externo. “Também propusemos a vedação das venezianas de ventilação permanente. Era necessária, neste caso, a instalação de um sistema de condicionamento de ar no local”, relembra Passeri. 

Entre as soluções de condicionamento acústico estava a substituição do sistema existente de baffles, junto ao telhado da quadra, por outro mais leve e eficiente, com placas Sonex illtec de 1200x600x100mm, com aumento de 45% da superfície absorvente útil. Outra solução pensada para atender a este requisito foi a instalação de painéis Nexacustic sobre placas de lã de vidro em todas as superfícies inclinadas das paredes de concreto aparente, nas duas laterais da quadra fechada.  

Colaboração técnica

Débora Barretto – Ceo da Audium

Lineu Passeri Júnior – Sócio e diretor-técnico da Passeri Acústica

Você também pode gostar

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.