Você sabe o quê priorizar na acústica de templos religiosos?

8 minutos para ler

Iluminação e absorção acústica em locais sacros são essenciais para favorecer a liturgia. Saiba quais são os cuidados que estes projetos complexos exigem

Todo templo está carregado de simbolismos e de grande carga emocional. Por isso, dois aspectos são absolutamente fundamentais neste tipo de projeto: a luz e a acústica. Se a iluminação deve ser pensada como vinda de uma fonte divina e não artificial, a acústica deve proporcionar aos fiéis uma sensação de introspecção, paz e recolhimento.

O primeiro passo de um bom projeto acústico para locais sacros é minimizar as principais fontes de ruído, sejam elas as externas (como as causadas pelo tráfego urbano, por exemplo), como as produzidas internamente pela própria atividade litúrgica. “Hoje o ritual litúrgico virou um espetáculo onde a palavra falada adquiriu maior importância, assim como a música, que passou a ter muito mais relevância”, lembra Nelson Solano Vianna, arquiteto e consultor na Geros Arquitetura Eireli.

Para a arquiteta Nevânia Alves de Almeida Santos, proprietária do escritório Nevânia Alves Arquitetura, garantir a qualidade do som produzido internamente é fundamental em projetos desta natureza. “O som produzido pelo celebrante tem de ser claro, caso contrário, as pessoas ficam cansadas e o tempo de celebração se torna estressante. Do mesmo modo, o som produzido pelos fiéis pode estressar o sacerdote”, ressalta.

Estratégias de projeto

Além de garantir a audibilidade e inteligibilidade tanto da palavra falada quanto da palavra cantada (que apresentam características bem diferentes entre si), também é preciso entender os diferentes rituais que podem ser manifestados dentro destes locais. Um projeto acústico para uma sinagoga seguramente será diferente do de um destinado a uma mesquita ou a uma igreja católica ou evangélica. 

Seja qual for o uso sacro que o espaço terá, alguns cuidados devem ser seguidos à risca, como garantir o isolamento e condicionamento acústico adequados.

Isolar acusticamente os templos é um dos cuidados principais neste tipo de projeto. Mais do que evitar ruídos intrusivos no local, é preciso pensar como o som produzido no seu interior não vazará para fora. “Muitas igrejas estão sendo embargadas pela justiça em função do ruído que elas geram para seus entornos imediatos. E desde o ano passado temos uma norma brasileira bastante rígida que norteia esta questão, a NBR 10.151 Acústica (Medição e Avaliação de Níveis de Pressão Sonora em Áreas Habitadas), que trata do assunto”, lembra Solano.

Para garantir o correto isolamento, é preciso levar em conta algumas variáveis como o local de implantação da igreja e seu uso do solo, a caracterização das fontes externas de ruído, a orientação do edifício, o número, as dimensões e as tipologias de suas aberturas, o sistema construtivo adotado, suas dimensões e capacidade de ocupação e o tipo de estímulo acústico gerado internamente, dentre outras. “Um aspecto muito importante do isolamento que chamo atenção é a interface com a iluminação natural e o condicionamento térmico”, explica.

O consultor lembra que o problema do isolamento acústico não está nas partes opacas dos edifícios, mas sim nas suas aberturas. “Se abro para iluminar e ventilar, entra barulho. Se fecho, escurece e não ventila. Resolver bem este ‘confronto de exigências’ na fase inicial do projeto é crucial, mas nem sempre isto acontece”.

Reverberação e difusão sonora

Um dos parâmetros mais importantes na acústica (mas não o único) é o tempo de reverberação, ou em palavras mais simples, o tempo medido em segundos para que um estímulo sonoro demore para se dissipar dentro de um ambiente (ou de uma maneira mais precisa, para que ele decresça em 60 dB após cessado o estímulo). Este tempo depende das dimensões do espaço (seu volume) e das características de absorção de todas as superfícies internas, do mobiliário e da ocupação.

Em templos, em função das grandes dimensões e volumes, dos pisos, das paredes e dos tetos duros e refletores e dos bancos de madeira (elementos nada absorvedores de som), os fiéis acabam sendo os únicos elementos de absorção acústica dentro destes locais.  

Outro parâmetro acústico muito importante em projetos de grandes ambientes é garantir a difusão, ou seja, o espalhamento do som, o que evitará ecos e pontos cegos. Para evitar estes efeitos, o ideal é que o projeto evite as chamadas formas indesejáveis, como as côncavas ou paralelismos de superfícies, por exemplo, e opte por garantir superfícies refletoras projetadas para distribuir uniformemente o som sobre todo o espaço. Outro cuidado é garantir que todos os materiais aplicados nas paredes, tetos e pisos sigam as necessidades de reflexão ou absorção de som exigidos.

Absorção acústica

A absorção acústica pode ser garantida pela utilização de materiais fonoabsorventes, geralmente leves, porosos ou até rígidos como a madeira, o metal e o gesso, mas com furos ou ranhuras, ou ainda com lã mineral por trás.

Um detalhe importante em projetos desta natureza é o tempo de reverberação, fundamental não só para a inteligibilidade da palavra falada, mas também para a qualidade acústica da música. “A palavra falada exige tempos de reverberação menores, já a música, tempos maiores. Mas isto também dependerá muito do tipo de música”, explica Solano.

O consultor lembra que a absorção acústica é a medida em Sabines Métricos e é dada pela área da superfície versus seu coeficiente de absorção sonora  , sempre calculada por banda de frequência, dos graves aos agudos. “Mas existem outros descritores acústicos que podem ser avaliados, tais como Clareza, EDT, STI, SIL e G (força sonora). Mas todos dependem do que se coloca como acabamento das superfícies internas (reflexão e absorção) e da solução dimensional, formal e volumétrica do espaço”, completa.

No entanto, vale observar que a música sacra, de órgão, é a que exige maiores tempos de reverberação. Já a música dita “popular”, demanda tempos menores, mas ainda assim maiores que para a palavra falada. Por fim, a música eletrônica precisa de tempos menores (em relação a outros tipos de música) para que se perceba as nuances de cada instrumento.

Produtos e soluções

Escolher corretamente os materiais e acabamentos internos e saber onde aplicá-los é o que determina o sucesso de projetos de templos. Em geral, teto e paredes são as principais superfícies de intervenção. Mas alguns cuidados devem ser tomados ainda na fase de projeto. A própria forma da igreja deve ser pensada de modo a não causar defeitos e, ao mesmo tempo, produzir uma espécie de guia para o som, contribuindo para uma propagação mais uniforme até os locais de assento.

“Essa boa distribuição será garantida pelo desenho das paredes laterais e, principalmente, pelo desenho do teto. Um erro muito comum é colocar todo o teto absorvedor. Isso pode comprometer a qualidade acústica de um espaço, principalmente se ele tiver dimensões maiores”, observa Solano. O consultor lembra, ainda, que até para se colocar materiais fonoabsorventes no teto é necessário ter critérios claros, sendo suas laterais e, principalmente, sua parte do fundo sempre as superfícies mais adequadas.

Case

Paróquia Santo Agostinho

Um grande problema de reverberação era o principal desafio acústico da Paróquia Santo Agostinho, localizada em São José dos Campos, interior de São Paulo. Suas laterais são quase completamente fechadas por vidro, um material extremamente refletivo, além do granito (material com a mesma característica) que reveste o piso.

A solução foi tratar o forro com o Nexacustic, da Owa Sonex, um material extremamente elegante que permitiu aliar performance acústica à estética. Além de usado no teto, o produto foi utilizado também para revestir uma viga aparente do mezanino, fazendo conexão com o material já utilizado no teto.

Imagens: Wesley Cunha
Obra e instalação: Pisovale
Arquitetura: Nevânia Alves Arquitetura

“No fundo do presbitério, usamos o Nexacustic liso, já que este é o local onde o celebrante fala e o som não precisava ser absorvido. A comunidade e o padre ficaram extremamente satisfeitos com o resultado e, hoje, as celebrações acontecem com o som ‘limpo’”, explica Nevânia Alves de Almeida Santos, responsável pelo projeto.

Para conhecer mais sobre acústica de igrejas, acesse nosso webinar “Por que instituições religiosas precisam de acústica?” e confira um conteúdo exclusivo sobre o tema.

Colaboração técnica

Nelson Solano Vianna – arquiteto e consultor na Geros Arquitetura Eireli Nevânia Alves de Almeida Santos – proprietária do escritório Nevânia Alves Arquiteta

A obra da Igreja de Santo Agostinho é de execução da Pisovale.

Você também pode gostar

2 thoughts on “Você sabe o quê priorizar na acústica de templos religiosos?

  1. Eu gostei muito do projeto da Paróquia Santo Agostinho, simples, bonito e parece bastante eficiente.
    Quanto a parte da acústica, o Prof. Nelson Solano Vianna, é um dos ícones em acústica do Brasil.
    Eu gostaria de convidá-los a participar do nosso grupo que reúne profissionais que direta ou indiretamente trabalham com acústica.
    Hoje o grupo reúne quase 9.000 profissionais e empresas ligadas a esta área, em diversas partes do mundo.
    O objetivo inicial do grupo é de apenas divulgar os trabalhos dos profissionais e estreitar o relacionamento entre eles.
    Futuramente, a ideia é transformar o grupo em um forum permanente sobre acústica já que, todos os participantes se enquadram como palestrantes e ouvintes, dependendo se suas especialidades.

Deixe uma resposta para OWA Sonex Cancelar resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.